Clique Bait
A nossa raiva dá dinheiro.
O Facebook está cada vez mais a transformar-se num lar de idosos ideológicos, que confundem liberdade com inflexibilidade cognitiva. E o Instagram, num hospício estético de egos, onde o vazio existencial se mascara de montra plastificada.
Custa-me abrir as redes e sair daqui um bocado mais desiludida com pessoas de quem gosto. Ver o que partilham, o que defendem e a facilidade com que desvalorizam a vida e os direitos dos outros tem sido um exercício de desilusão difícil de ignorar.
A ironia destas plataformas é acharmos que somos livres e donos das nossas opiniões, quando passamos o dia a consumir um produto especificamente projetado para nos manter agarrados a um ecrã. Até podemos achar que somos nós a usar as redes, mas são elas que nos estão a usar a nós. Essa ilusão de controlo é o mecanismo mais eficaz de submissão.
A fórmula é simples: a nossa raiva dá dinheiro, a nossa atenção ainda dá mais. A atenção tornou-se o recurso mais escasso e valioso do mundo. Quanto mais reagimos e «espumamos da boca» nos comentários, melhor para quem está a faturar com isso. A cultura do conflito, mais conhecida como rage farming, é uma mina de ouro. Logo seguido pelo rage bait, a isca perfeita para nos fazer morder o anzol.
O algoritmo não quer saber se estás a usar o cérebro ou a tornar-te uma pessoa melhor. Recompensa a reatividade e as perspetivas solipsistas (para não lhes chamar narcisistas e cair no cliché da palavra mais gasta de 2026). É toda uma «moral virtual» que nos faz confundir liberdade de expressão com pensamento crítico e teimosia ou dogmatismo com autenticidade: o escudo protetor de muitos egos.
A máquina só quer saber se ficas mais cinco minutos a consumir merda e a discutir com alguém. E, se for preciso pôr-te à frente alguém ou alguma coisa que te irrite profundamente, é exatamente isso que vai fazer.
A engenharia do atrito é muito mais lucrativa do que a da empatia. Uma pessoa de bem com a vida fecha a app. Uma pessoa perturbada entra nos comentários para insultar um desconhecido às duas da manhã.
Spoiler alert: não foi só nas acampadas e manifestações pacíficas das nossas cidades que passámos ao choque e levámos com bastonadas. O verdadeiro choque cultural e social, a carga policial invisível que nos fratura a mente, começou exatamente aqui!
E como, mesmo conhecendo todas estas mecânicas de manipulação, estou a ser vítima do meu próprio algoritmo e a servir de ferramenta de choque tribal, escolho retirar-me desta faixa de Gaza. Vou fazer um jejum digital até recuperar a minha produção natural de dopamina.
Ainda vai demorar até olharmos para as redes sociais como olhamos para as drogas ou o álcool: como um problema de saúde pública, com consequências psicológicas e sociais demasiado graves. Se, entretanto, a sociedade acordar e chegarmos lá, por favor, avisem-me.
A quem quiser encontrar-me, conversar ou trabalhar comigo, preencha o formulário de contacto. Os mais próximos já sabem onde me encontrar.

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